Por Lucas Vidigal
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que "herdou uma nação em crise" ao assumir o mandato, celebrou a vacinação em massa contra o coronavírus e pediu plano trilionário para proteção social e para reaquecer o mercado de trabalho — além de outros temas dos 100 primeiros dias do novo governo, apresentados em discurso ao Congresso nesta quarta-feira (28). Veja na íntegra o VÍDEO acima.
Ao abrir o pronunciamento, o primeiro do tipo desde a posse, Biden disse que "herdou" as seguintes crises:
- a pandemia do coronavírus, a pior em um século.
- a pior crise econômica desde a Grande Depressão (1929).
- o pior ataque à democracia desde a Guerra Civil, no Século XIX — Biden se referia à invasão ao Capitólio por apoiadores de Donald Trump, em 6 de janeiro.
Como em um discurso tradicional de Estado da União (saiba a diferença no fim da reportagem), Biden fez um balanço dos 100 primeiros dias de governo, marca que será atingida nesta quinta. Veja abaixo um resumo:
- Biden reforçou o pedido para que todos se vacinem já
- Prometeu investimento em ciência
- Detalhou um plano de geração de empregos, inserido na 'economia verde
- Propôs investimento trilionário às famílias de baixa e média renda
- Pediu que as pessoas e empresas priorizassem produtos feitos nos EUA
- Acenou a sindicatos e prometeu expandir acesso ao serviço de saúde
- Prometeu não aumentar impostos de pessoas com renda inferior a US$ 400 mil anuais
- Cobrou a China quanto ao compromisso no combate às mudanças climáticas
- Disse que os EUA vão manter a presença militar na região Indo-Pacífica
- Advertiu a Rússia de que 'ações têm consequências', mas disse estar aberto à cooperação
- Comemorou o início da retirada dos militares americanos no Afeganistão
- Alertou sobre o risco do 'terrorismo supremacista' de dentro dos EUA
- Citou o caso George Floyd e pediu que polícias 'reconstruam relação de confiança' com o povo
- Disse que é preciso acabar com o 'racismo sistêmico' no sistema criminal
- Propôs leis para garantir igualdade com população LGBTQ e para coibir violência contra mulher
- Pediu esforço bipartidário para acabar com 'epidemia de violência armada'
- Reforçou necessidade de cooperação com países da América Central para coibir caravanas de imigrantes e propôs reforma no sistema migratório
Pandemia, vacinação e ciência
Logo ao abrir a prestação de contas, o presidente celebrou o rápido ritmo da vacinação, aberta a todos os maiores de 18 nos EUA — segundo o governo, 90% dos americanos têm um posto de vacina a até cerca de 8 km de casa.
Inicialmente, a ideia do governo Biden era aplicar 100 milhões de doses até este marco de 100 dias de governo. Com a aceleração das aplicações — a maior parte das vacinas tinha sido comprada na gestão Trump — esse objetivo foi atingido cedo o bastante para que a Casa Branca dobrasse a meta: 200 milhões de doses injetadas, marco também já alcançado.
Também citando as vacinas, Biden disse que tem se comprometido com o investimento governamental em ciência e acenou para os novos objetivos no espaço, como as idas à Lua e a Marte — algo que Trump vinha falando em seus discursos.
Empregos, economia verde e impostos
Biden também falou sobre o plano de geração de empregos — o maior desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o governo — como recuperação da forte crise econômica gerada pelo coronavírus.
Segundo o presidente, esses novos postos "pagarão bem", estão em consonância com o combate às mudanças climáticas e fazem parte de um plano maior: "Compre [produtos] americanos".
A fala direcionada à geração de empregos remonta a um tema da campanha eleitoral: Trump, que apresentava bons números do mercado de trabalho antes da pandemia, dizia que os projetos de Biden para o meio-ambiente pioraria o desemprego.
- Plano trilionário para famílias
Esse estímulo à geração de empregos entra, segundo Biden, paralelamente a um projeto anunciado nesta quarta para aprovar um plano trilionário de investimentos para garantir creche, acesso à saúde e licença paternidade e maternidade, entre outros.
Dentro desse plano, o governo dos EUA pretende que famílias de classe média ou baixa não precisem pagar mais do que 7% de suas rendas para educação de crianças até 5 anos. "As mais carentes não precisarão gastar um centavo", disse.
Além disso, em um aceno ao eleitorado mais crítico à China como o trumpista, Biden admitiu que os EUA estão em uma "competição" com o país asiático para "vencer o Século XXI". "Dinheiro de impostos dos americanos serão usados para comprar produtos americanos feitos nos EUA e que criam empregos nos EUA", prometeu Biden.
- Sindicatos e acesso à saúde
Do outro lado, já em um aceno à parte mais à esquerda do Partido Democrata, o presidente elogiou os sindicatos, anunciou uma proposta de salário mínimo de US$ 15 por hora (equivalente hoje a R$ 80)
Na mesma linha, Biden prometeu baixar os preços dos medicamentos por meio do Medicare — o programa de saúde nacional dos EUA — e expandir o acesso à saúde.
Esse tema também é sensível nos EUA porque a ala mais à direita do Partido Democrata e do Partido Republicano temem um aumento de impostos para que o governo consiga arcar com esses estímulos. O presidente, no entanto, prometeu que isso não será feito aos mais pobres — Biden disse que não aumentará a tributação aos americanos com renda inferior a US$ 400 mil por ano.
"É hora de os EUA das corporações e de o 1% mais rico pagarem suas quantias justas. Só as quantias justas", disse Biden, citando evasão fiscal a paraísos como Suíça, Bermudas e Ilhas Cayman.
Crise climática, China e ações militares
- 'Compromisso global' e cobrança à China
Ao retomar o tema das mudanças climáticas, Biden afirmou que a luta contra os problemas decorrentes dessas transformações são "globais" e pediu ajuda de outros países: inclusive os rivais China e Rússia. Governos de diversos países participaram de uma Cúpula de Líderes sobre o Clima a convite do presidente americano na semana passada.
"O consenso é que, se agirmos, poderemos salvar o planeta — e criar milhões de empregos, crescimento econômico e oportunidades para melhorar o padrão de vida de todos no mundo", disse Biden, novamente prometendo "beneficiar a classe média". E, em seguida, ele voltou a cobrar a China.
"Isso quer dizer que vamos assegurar que todos os países joguem as mesmas regras na economia global, incluindo a China. Em minha discussão com o presidente Xi [Jinping], eu disse a ele que estamos abertos à competição e que não procuramos conflito".
Ao abordar a China, inclusive, Biden advertiu que vai manter a presença militar na região do Indo-Pacífico — onde há disputas territoriais entre chineses e países apoiados pelos EUA. O americano disse que não pretende iniciar um conflito, "mas prevenir um".
- Rússia, Irã e Coreia do Norte
Biden também subiu o tom sobre outro rival histórico dos EUA: a Rússia. Ele afirmou ter dito ao presidente
´´G1/Globo“