Ex-presidente tem evitado confrontar magistrados e conta com advogado que tem bom trânsito na corte

Bolsonaro aposta em ex-ministro do TSE para evitar derrota

Publicado em

JUSTIÇA

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) mudou de postura em relação ao Judiciário após perder as eleições. Os ataques reiterados e ofensas pessoais a ministros deram lugar ao silêncio sobre decisões judiciais controversas e ao distanciamento de polêmicas com integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal).

O novo comportamento é parte da estratégia do ex-mandatário para se manter juridicamente vivo.

A outra é apostar em um ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para evitar que a corte o declare inelegível no julgamento marcado para começar nesta quinta-feira (22).

O advogado Tarcísio Vieira de Carvalho é quem conduz a defesa e ocupará a tribuna para fazer a sustentação oral em favor do ex-mandatário.

Ministro do TSE de 2014 a 2021, Carvalho é respeitado por integrantes da corte e procura adotar uma posição mais técnica em debates eminentemente políticos, como o comportamento de Bolsonaro em relação ao sistema eleitoral.

Isso ocorreu, por exemplo, na ação apresentada no ano passado pelo PL em que questionou, sem provas, o resultado das urnas.

Desde o início da negociação para assumir a campanha de Bolsonaro, Carvalho disse que não participaria de contestações ao sistema de votação e coube à ala política, mais radicalizada do entorno de Bolsonaro, fazê-las.

O episódio levou a uma multa de R$ 23 milhões para a legenda, além do bloqueio de recursos do fundo partidário.

No entanto o advogado não conseguiu se descolar totalmente da postura agressiva do ex-presidente contra as instituições, embora adote atuação comportamento mais sóbrio, por exemplo, que Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro em outros processos e que tem uma atuação mais beligerante em relação a tribunais superiores.

Carvalho sempre foi visto por amigos como um homem conservador, mas chegou a ouvir recomendações de pessoas próximas para que não aceitasse ser contratado pelo PL para defender Bolsonaro perante o TSE nas eleições do ano passado.

A avaliação era que a postura do então presidente em relação ao Judiciário poderia respingar nele. E com razão. Nos bastidores, ministros do TSE acreditam que Carvalho se vinculou demais a Bolsonaro.

Leia Também:  "Peço a Deus que Mauro Cid não tenha errado", diz Bolsonaro

Pegou mal, por exemplo, a ação em que pediu para a corte eleitoral delimitasse a decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou estados e municípios a oferecerem transporte público gratuito no dia da eleição.

O relator do caso, Benedito Gonçalves, que também relata a ação que será julgada nesta semana, classificou o argumento da defesa de Bolsonaro como “absurdo” e determinou que o Ministério Público adotasse providências para evitar a propagação de dados falsos sobre a oferta de serviço pelos entes da federação na data da eleição passada.

“O argumento descamba para o absurdo, ao comparar a não cobrança de tarifa para uso de transporte público regular, em caráter geral e impessoal, com a organização de transporte clandestino destinado a grupos de eleitores, mirando o voto como recompensa pela benesse pessoal ofertada”, escreveu Benedito Gonçalves.

Para o julgamento, contudo, Carvalho prepara uma sustentação oral com argumentos mais técnicos para negar que as declarações falsas e sem base do ex-presidente sobre as urnas eletrônicas na reunião que convocou com embaixadores sejam suficientes para declará-lo inelegível.

A equipe jurídica de Bolsonaro deve dizer ainda que suas falas estão protegidas pela liberdade de expressão, um dos princípios constitucionais mais importantes numa democracia.

Doutor em direito pela USP, Carvalho tem boa relação com advogados influentes e integrantes de tribunais superiores. É próximo, por exemplo, do procurador-geral da República, Augusto Aras.

Apesar disso, o clima no escritório do ex-ministro e de aliados de Bolsonaro é de pessimismo. O grupo, inclusive, preferiu o silêncio nos últimos dias e tem evitado falar publicamente sobre o tema. Há um temor de que qualquer declaração possa corroborar os argumentos contra o ex-mandatário.

Aliados dão como certa a declaração de inelegibilidade. Reservadamente, um deles brinca que o melhor lugar para recursos, neste momento, é na igreja.

Apesar disso, Bolsonaro tem mantido o mesmo tom de quando perdeu a disputa.

Se enquanto ocupava o Palácio do Planalto ainda dava mais ouvidos ao seu entorno radicalizado, com o aumento do cerco jurídico a eles, inclusive com alguns dos seus principais assessores presos, o ex-presidente optou pelo resguardo.

Leia Também:  Preços do algodão iniciam março em alta com vendedores firmes e foco na próxima safra

Carvalho segue postura similar e tem preferido manter o silêncio, sem detalhar os argumentos de defesa, uma vez que o processo corre sob sigilo, incluindo as peças dos advogados do ex-mandatário.

A expectativa é que ele também cite a tese que defendeu quando era ministro do tribunal e votou pela absolvição da chapa de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), em 2017.

Na ocasião, a maioria do tribunal afirmou que novas provas levantadas pela Lava Jato que indicavam a existência de caixa 2 na campanha petista e emedebista não poderiam ser levadas em consideração para cassar a dupla vencedora da eleição presidencial de 2014.

Como Dilma já tinha sofrido o impeachment naquela época, a decisão beneficiou principalmente Temer, que pôde seguir no poder.

O tribunal entendeu que elementos levantados, por exemplo, a partir de delações premiadas da empreiteira Odebrecht não deveriam ter peso no julgamento porque tinham sido incluídos na ação após o início da tramitação do caso.

Agora, a defesa de Bolsonaro deve tentar limitar o julgamento à reunião convocada por Bolsonaro para propagar mentiras sobre as urnas eletrônicas e que motivou a ação protocolada pelo PDT que será analisada.

No entanto a corte já deu indícios desfavoráveis aos advogados. Isso ficou claro, por exemplo, na decisão que aceitou a inclusão no processo da minuta do decreto de golpe encontrada pela Polícia Federal na residência de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, em 12 de janeiro, segundo revelou a Folha de S.Paulo.

O relator tem afirmado que o tribunal não poderá analisar tão somente a reunião com embaixadores.

Ele apontou em despachos no processo que são necessários, para uma análise completa da ação, “elementos que se destinem a demonstrar desdobramentos dos fatos originariamente narrados [na ação]” e que apontem a gravidade da conduta de Bolsonaro e também “circunstâncias relevantes ao contexto dos fatos, reveladas em outros procedimentos policiais, investigativos ou jurisdicionais ou, ainda, que sejam de conhecimento público e notório”.

“FOLHAPRESS”

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

JUSTIÇA

8 de Janeiro: dos mais de 1,4 mil presos, 141 continuam na cadeia e 44 estão em prisão domiciliar

Publicados

em

Por Reynaldo Turollo Jr,

Estátua 'A Justiça', de Alfredo Ceschiatti, pichada por vândalos do 8 de janeiro, em frente à sede do STF, em Brasília — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

               Estátua ‘A Justiça’, de Alfredo Ceschiatti, pichada por vândalos do 8 de janeiro, em frente à sede do STF, em Brasília — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Dos mais de 1,4 mil presos do 8 de Janeiro e de outros processos relacionados aos ataques à democracia, 141 permanecem na cadeia e 44 estão em prisão domiciliar — parte desses com tornozeleira eletrônica, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Dos 141 que estão na cadeia, 112 já foram condenados por crimes como golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Os outros 29 estão em prisão preventiva aguardando o julgamento — incluindo o general Walter Braga Netto, ex-ministro de Bolsonaro.

Os dados são de um levantamento feito pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (12) a pedido do g1.

Em 8 de janeiro de 2023 e no dia seguinte em frente ao quartel-general do Exército, 1.406 pessoas foram presas em flagrante.

Leia Também:  Preços do algodão iniciam março em alta com vendedores firmes e foco na próxima safra

Após a realização das audiências de custódia ainda naquele mês, o ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos no STF, manteve 942 pessoas presas preventivamente.

A maioria já deixou a cadeia porque cometeu crimes menos graves e, por isso, respondeu em liberdade e já cumpriu a pena. Houve também pessoas que fizeram acordo para se livrar do processo e de uma eventual condenação.

Crimes menos graves

Segundo os dados atualizados, 552 investigados pelo 8 de janeiro assinaram Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com a Procuradoria-Geral da República, homologado pelo STF.

Pela lei, o ANPP é possível quando a pessoa é acusada de cometer crimes menos graves, com pena mínima inferior a quatro anos. Esse era o caso da maioria dos presos no acampamento em frente ao QG do Exército, em Brasília, acusados de praticar incitação ao crime e associação criminosa.

Ao fecharem acordo, essas pessoas assumiram os delitos e se comprometeram a cumprir uma série de condições impostas pelo Supremo, como não reincidir, prestar serviços à comunidade e pagar multa de R$ 5 mil.

Leia Também:  Justiça nega pedido de soltura para anestesista acusado de estupro

Dos acusados dos crimes menos graves que não assinaram acordo, 359 foram condenados, mas já não estão na prisão. O tribunal informou que 131 ações foram extintas por cumprimento integral da pena.

Crimes mais graves

Já entre os acusados dos crimes mais graves — tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, associação criminosa e deterioração de patrimônio público —, 279 foram condenados pelo Supremo.

As penas chegam a até 17 anos de prisão, dependendo do nível de envolvimento do réu nos atos violentos.

É nesse grupo que estão os 112 que continuam presos em regime fechado. O restante deixou a cadeia, por exemplo, progredindo de regime.

Somadas, as condenações por crimes menos graves (359) e por crimes mais graves (279) totalizam 638, de acordo com o Supremo. Houve também dez absolvições ao final dos processos.

A Corte informou que arrecadou quase R$ 3 milhões em prestação pecuniária, um valor pago por condenados como parte da punição e destinado à reparação dos danos causados pelos crimes

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

CIDADES

POLÍTICA

MULHER

POLÍCIA

MAIS LIDAS DA SEMANA