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Boate Kiss: ‘Famílias não querem exploração comercial da tragédia’, diz advogada sobre série da Netflix

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A advogada de 42 famílias de vítimas e sobreviventes da boate Kiss diz em entrevista, que existe a chance de um processo contra a Netflix por causa da série ficcional Todo Dia a Mesma Noite, mas que seus clientes “querem um diálogo colaborativo” com o serviço de streaming, para evitar o que chamam de “exploração comercial da tragédia”.

Segundo Juliane Müller Korb, as famílias que ela representa pretendem pedir uma explicação à Netflix sobre por que não foram ouvidas ou consultadas.

Ela alega que muitas só tomaram conhecimento da série no dia de seu lançamento, na sexta-feira passada (27/1), marco de dez anos da tragédia — o incêndio na casa noturna ocorreu em 27 de janeiro de 2013.

Contatada, a Netflix não se pronunciou sobre o caso até a conclusão desta reportagem.

O fogo durante a festa universitária “Agromerados” causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas, em sua maioria jovens.

As famílias também pedem a alteração no trailer exibido na TV e nas redes sociais que inclui cenas do reconhecimento dos corpos em um ginásio, “um conteúdo sensível que fez alguns reviverem o trauma”, diz Müller Korb.

Por fim, desejam “debater a responsabilidade social de produções audiovisuais baseadas em fatos reais”, acrescenta a advogada.

Destruição provocada pelo incêndio dentro da boate

CRÉDITO, KISS: QUE NÃO SE REPITA/DIVULGAÇÃO. Destruição provocada pelo incêndio dentro da boate

“As famílias não querem a utilização comercial da tragédia às custas de dor e sofrimento. Faltou sensibilidade à Netflix. Ficou para elas um sentimento de resignação, de indignação, de dor e de revolta muito grande”, segundo Müller Korb.

Ao mesmo tempo, diz a advogada, “ninguém quer que essa tragédia seja esquecida, que seja varrida para debaixo do tapete; por isso, a necessidade de uma avaliação minuciosa sobre os próximos passos” — o que incluiria, eventualmente, uma ação judicial contra a plataforma de streaming.

Há relatos de familiares de vítimas e sobreviventes sendo abordados por empresas interessadas em vender artigos, como bebidas e camisetas, com promessas de que parte da renda seja revertida em benefício deles, o que, segundo a advogada, “gerou ainda mais revolta e indignação”.

Müller Korb reforça que as famílias não querem “qualquer tipo de compensação financeira”.

E que a ideia de construção de um memorial em homenagem às vítimas, inicialmente contemplada, foi descartada após a assinatura do termo de compromisso pelo prefeito de Santa Maria de que um monumento seria erguido.

As obras devem começar ainda este ano, mas não há uma data definida, prometeu o prefeito Jorge Pozzobom (PSDB).

Permanece em discussão, no entanto, a possibilidade de pedir à Netflix que parte dos lucros sejam repassados para o tratamento dos sobreviventes.

Mural de fotos das vítimas da tragédia

CRÉDITO, KISS: QUE NÃO SE REPITA/DIVULGAÇÃO. 90% das vítimas tinham entre 18 e 30 anos

Lançamento e repercussão

Todo Dia a Mesma Noite foi lançada pela plataforma de streaming na sexta-feira (27/1), para coincidir com os dez anos da tragédia.

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Banheiro da boate destruído

CRÉDITO, KISS: QUE NÃO SE REPITA/DIVULGAÇÃO. Mais da metade dos mortos estavam nos banheiros da boate

Dividida em cinco episódios, a série, que mistura realidade e ficção, é baseada no livro homônimo da jornalista Daniela Arbex e retrata a história de quatro familiares específicos. As vítimas, familiares e amigos são interpretados por atores.

A produção tem recebido críticas positivas da imprensa e de usuários nas redes sociais. Muitos destacam a sensibilidade com que a obra audiovisual tratou a tragédia.

Diante da grande repercussão, consideram-na importante para preservar a memória, lutar contra a impunidade e evitar que eventos similares se repitam.

A série contou com o apoio da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) que, em nota assinada pelo seu presidente, Gabriel Rovadoschi Barros, informou não ter relação com qualquer intenção de processar a Netflix (ver nota completa ao fim desta reportagem).

“Não há nenhum valor sendo pago a nós com a produção, e o que ganhamos é a crença no fortalecimento na luta por justiça e pela memória. Para que não se repita”, diz o comunicado.

Questionada sobre se a polêmica poderia prejudicar a imagem das famílias que representa junto à opinião pública, Müller Korb diz estar despreocupada.

“Acho que as pessoas não têm que tomar lado. Os dois lados precisam de respeito. Quem concorda com a exibição e quem não concorda com a exibição da forma como ela está sendo feita. Os dois lados têm que ser ouvidos porque são grupos que pensam diferente, mas que compartilham a mesma dor.”

Segundo a advogada, as famílias reconhecem que a série gerou “forte comoção social”, mas temem que, “ao visar o lucro”, possa encorajar outras formas de “mercantilização” da tragédia.

“As famílias sempre foram favoráveis a todo o conteúdo sobre o assunto e querem que o Brasil nunca se esqueça do que aconteceu. Mas não que a a tragédia seja explorada comercialmente. Uma década depois, eles ainda clamam por justiça”, conclui.

Mulher em frente a mural com fotos das vítimas segurando cartaz em que se lê: 'Os assassinos estão livres'

CRÉDITO, KISS: QUE NÃO SE REPITA/DIVULGAÇÃO. Os quatro réus no processo foram condenados, mas meses depois a sentença foi anulada — e não há data para novo julgamento

Em 2021, um julgamento foi finalmente realizado e resultou na condenação dos quatro réus acusados do incêndio: os sócios Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann e os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

No entanto, após acolher alguns dos argumentos dos réus, o júri foi anulado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul no ano passado — e os condenados, soltos.

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Os motivos vão de critérios para a escolha dos jurados a provas apresentadas supostamente sem prazo suficiente para análise da defesa, o que é contestado pelo juiz do caso.

Recursos, tanto da acusação quanto da defesa, ainda estão sendo avaliados em instâncias superiores.

Ainda não se sabe, portanto, se o veredicto será mantido ou se um novo julgamento terá que ser realizado.

Confira a íntegra da nota da AVTSM:

“Perante a divulgação em inúmeros veículos da imprensa acerca de um processo contra a empresa Netflix em função da série “Todo o dia a mesma noite”, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da tragédia de Santa Maria esclarece através dessa nota que estávamos sim cientes que a produção estava sendo realizada com base nos personagens do livro “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss”, de Daniela Arbex, e sente-se representada por ela bem como pelo livro da autora.

A produção não retrata de forma individual os 242 jovens assassinados, mas sim um recorte das quatro famílias de pais que foram processados. Todos familiares de vítimas e sobreviventes retratados por personagens da obra estavam cientes e em concordância. Além disso, reiteramos que não estamos movendo nenhum processo contra as produções, nem pretendemos, por acreditarmos na potência das produções na luta por justiça e a luta por memória.

Acreditamos, acima de tudo, que tragédias como a que vivenciamos precisam ser contadas através de todas as formas. Recontar essa história significa denunciar as inúmeras negligências e tentativas de silenciamento que encontramos pelo caminho, além de auxiliar na prevenção para que esse tipo de tragédia não aconteça com mais nenhuma família, algo que temos como propósito desde o 1º dia de nossa fundação.

Mostrar o que aconteceu na Kiss faz com que a morte de nossos filhos e filhas, irmãos e irmãs, pais e mães, amigos e amigas não tenha sido em vão. Mostrar a morosidade, a burocracia e como é o sistema judiciário brasileiro serve como denúncia e como protesto. É preciso falar, debate, produzir materiais sobre o que aconteceu naquela trágica noite de 27 de janeiro de 2013, pois só assim conseguiremos que as pessoas entendam o que a ganância, a negligência e a omissão são capazes de fazer. Em Santa Maria, esses fatores mataram 242 jovens e deixaram 636 com marcas físicas e psicológicas.

Entendemos que rever a tragédia, principalmente nos dois primeiros episódios pode mobilizar os sentimentos, as lembranças e dimensionar a impunidade em sua ferocidade, e, com isso, a associação se disponibiliza a acolher e a promover ações para comporem o movimento por justiça.

Por fim, esclarecemos que desde o dia 27 de janeiro de 2013, nós sofremos com a perda irremediável de nossos filhos, irmãos e amigos, sabemos o quanto isso nos dói. Não há nenhum valor sendo pago a nós com a produção, e o que ganhamos é a crença no fortalecimento na luta por justiça e pela memória. Para que não se repita.

Santa Maria, 29 de janeiro de 2023.

Gabriel Rovadoschi Barros

Presidente da Associação dos Familiares de Vìtimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria.”

“BBC News”

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Conclave para eleição do sucessor do papa inicia em 7 de maio

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Conclave para eleição do sucessor do papa inicia em 7 de maio

Conclave para eleição do sucessor do papa Francisco começará em 7 de maio

O porta-voz do Vaticano informou a data, ao mesmo tempo que o Museu do Vaticano anunciou o fechamento da Capela Sistina, a majestosa sala adornada com os célebres afrescos de Michelangelo, situada no Palácio Apostólico.

Os cardeais participarão de uma missa solene na Basílica de São Pedro no Vaticano na quarta-feira da próxima semana, após a qual aqueles com direito a voto – os que têm menos de 80 anos – se reunirão a portas fechadas para votar em um processo secreto que pode durar vários dias.

O primeiro pontífice latino-americano foi enterrado no sábado, após uma cerimônia solene de despedida na presença de líderes internacionais e de 400.000 pessoas.

Os cardeais foram convocados a Roma para escolher o novo papa. Do total de 135 com direito a voto – porque têm menos de 80 anos -, 80% foram designados por Francisco. Eles vêm de todas as regiões do mundo e muitos não se conhecem.

“Personalidade aberta”

Patricia Spotti espera que o novo pontífice “seja como o papa que faleceu”. “Deve ter uma personalidade aberta para todos”, disse à AFP esta mulher de 68 anos que viajou de Milão a Roma para o Ano do Jubileu, celebrado em 2025.

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Muitos fiéis temem que o novo papa represente um passo atrás em relação ao legado do jesuíta argentino, marcado pela luta contra os abusos sexuais de menores de idade na Igreja, por mais espaço para mulheres e leigos e pela defesa dos pobres e migrantes.

“Nosso desejo é encontrar alguém que se pareça com Francisco, não que seja o mesmo, mas em continuidade”, declarou o cardeal argentino Ángel Sixto Rossi, de 66 anos.

“É difícil dizer como imaginamos o perfil do novo papa”, destacou o cardeal italiano Giuseppe Versaldi, de 83 anos, sem direito a voto. “Tem que haver continuidade, mas também avançar em frente, não apenas repetir o passado”.

O cardeal espanhol José Cobo disse ao jornal El País que não será “nada previsível”.

Como no filme?

O conclave provoca fascínio há vários séculos. O recente filme homônimo do diretor alemão Edward Berger, que venceu em março o Oscar de melhor roteiro adaptado, popularizou ainda mais o evento.

“Mais da metade de nós viveremos nosso primeiro conclave. É uma oportunidade para mostrar ao mundo que filmes como ‘Conclave’ e outros semelhantes não são a realidade”, disse o cardeal espanhol Cristóbal López Romero ao portal oficial Vatican News.

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O filme retrata o processo de eleição de um novo papa, em reuniões a portas fechadas. O relato fictício mostra as tensões entre diversas alas do Vaticano.

Mas as divisões dentro da Igreja não são uma ficção. As reformas impulsionadas por Francisco e seu estilo simples despertaram críticas entre os setores mais conservadores, que apostam em uma mudança mais focada na doutrina.

“Hoje, precisamos de união, não de divisão”, advertiu no domingo o cardeal do Mali Jean Zerbo, de 81 anos, após uma oração dos cardeais diante do túmulo de Francisco.

As apostas

O cardeal alemão Reinhard Marx espera um conclave de “poucos dias”.

Roberto Regoli, professor da Universidade Pontifícia Gregoriana, acredita que não será rápido. “Estamos em um período em que o catolicismo está enfrentando várias polarizações e os cardeais terão que encontrar alguém que saiba forjar uma unidade maior”, disse.

Com os conflitos e as crises diplomáticas no mundo, o italiano Pietro Parolin aparece como um dos favoritos. O cardeal atuou como secretário de Estado com Francisco, depois de ocupar o posto de núncio na Venezuela.

A casa de apostas britânica William Hill o coloca à frente do filipino Luis Antonio Tagle, seguido do cardeal ganês Peter Turkson e do também italiano Matteo Zuppi.

“ISTOÉ”

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