Gabriel e a mãe, Silvana: brasileiro vive período de angústia à espera de notícias sobre a família
Guerra na Ucrânia: a luta de brasileiro por informações dos pais desaparecidos na cidade mais atacada
GUERRA
Por Vinicius Lemos.
“Não conseguiria continuar trabalhando tranquilamente sem notícias dos meus pais. Estava pensando nisso toda hora. Seria perigoso continuar embarcado, porque é um trabalho que requer muita responsabilidade e seria difícil continuar enquanto estava com a mente ocupada por problemas pessoais”, diz à BBC News Brasil.
Ele é filho da brasileira Silvana Vicente e do ucraniano Vasyl Pilipenko. O casal estava em Mariupol, importante cidade portuária ucraniana, quando os ataques russos começaram.
Há quase 20 dias, Gabriel não tem notícias dos familiares. No último contato, os pais dele avisaram aos parentes que ficariam sem comunicação porque a cidade estava sem energia elétrica em decorrência dos sucessivos ataques.
Desde o início da invasão russa na Ucrânia, em 24 de fevereiro, Mariupol, que tem cerca de 400 mil habitantes, tem sido duramente atingida. Milhares de civis estão presos na região, enquanto as tropas russas seguem a ofensiva com mísseis e artilharia, segundo autoridades ucranianas.
Há relatos de ataques a diferentes pontos da cidade, como uma maternidade e uma escola de arte que, conforme as autoridades ucranianas, abrigava 400 moradores da cidade.
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Brasileiro junto com o pai, o ucraniano Vasyl Pilipenko: filho deixou o trabalho após ficar sem informações dos familiares
Para Gabriel, cada dia sem notícias dos pais aumenta ainda mais a angústia que tem vivido. “Já passou muito tempo. A cidade está com problemas com abastecimento de água, sem água para beber, e sem comida. Isso me deixa muito preocupado, porque mesmo que eles estejam bem, podem estar passando por dificuldades”, diz.
Em busca de informações sobre a família
Diante dos constantes ataques russos, Gabriel decidiu não tentar, ao menos por ora, entrar na Ucrânia. Após deixar a embarcação na qual trabalhava, ele seguiu para a Alemanha, onde permanece à espera de notícias da família.
“Ainda não tenho certeza, estou pensando sobre ir para a Ucrânia. Mas para sair daqui (na Alemanha) para chegar a Mariupol teria que passar por muitas estradas perigosas, então fico receoso de ficar preso em algum lugar e não poder ajudar os meus pais”, diz.
O marinheiro tem mantido contato com pessoas que também têm parentes em Mariupol. Ele diz que tem feito ligações para pessoas que estão em áreas próximas à cidade e que talvez possam procurar a família dele.
“Estou tentando ser o mais informado possível para saber como posso ajudar os meus pais”, diz. “Tenho tentado arranjar um jeito de tirar a minha família de lá e sei que vou conseguir”, acrescenta.
Os intensos ataques a Mariupol se explicam pela posição estratégica dela no mapa da Ucrânia. Se dominada, a cidade ajudará os russos a formarem uma espécie de corredor ligando as duas áreas separatistas da região de Donbas até a península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014. Com esse grau de controle, os russos teriam também acesso facilitado tanto ao Mar de Azov quanto ao Mar Negro.
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Áreas da Ucrânia controladas pela Rússia
No último dia em que teve contato com a família, no início de março, Silvana gravou um vídeo para uma veículo de imprensa paraibano no qual contou que Mariupol estava cercada e todas as saídas estavam fechadas.
“Não saímos logo no início (do conflito) porque temos a mãe do meu esposo, a minha sogra, muito fragilizada, e é quase impossível tentar se aventurar a sair da cidade com ela”, disse.
A paraibana ainda comentou que a Embaixada brasileira em Kiev, capital da Ucrânia, ofereceu transporte e trem para deixar o país, mas não se responsabilizou por possíveis riscos no trajeto em meio ao conflito. “Então seria por conta e risco nosso. Diante desses obstáculos, decidimos ficar aqui em Mariupol”, relatou no vídeo.
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Diversas construções em Mariupol foram atingidas por ataques desde o fim de fevereiro
Silvana e Vasyl moram em Mariupol desde o ano passado, quando se mudaram para acompanhar a mãe dele, uma idosa que precisa de cuidados. Já Gabriel mora em Odessa, cidade portuária da Ucrânia, onde os pais dele também viviam antes do endereço atual.
Gabriel, assim como a mãe, nasceu em João Pessoa, na Paraíba, onde morou até os 16 anos. Ele e os pais costumavam visitar a Ucrânia com frequência. A família se mudou para o país do leste europeu no fim da adolescência dele.
A história dos pais de Gabriel começou há cerca de 27 anos, quando se conheceram em uma festa em Santos (SP). Silvana é artesã e estava a passeio na cidade, enquanto Vasyl estava a trabalho porque era marinheiro mercante — ele é a principal inspiração para que o filho seguisse no mesmo caminho.
O último contato de Gabriel com os pais foi em 2 de março, por meio de ligação telefônica. “A ligação ficava caindo, mas consegui conversar com eles e me explicaram que a situação estava ficando pior, que estavam cortando a luz e estavam com problemas de internet e sinal. No dia seguinte não consegui conversar com eles mais”.
Ele acredita que os pais, assim como tantos outros moradores da região, ficaram sem energia elétrica, não conseguiram mais carregar o celular e perderam o contato com a família. “Algumas pessoas conseguiram carregar seus celulares em baterias de carro, mas meus pais não têm carro. Além da eletricidade, cortaram também a rede móvel de celular”, diz.
“Alguns conseguem achar sinal de celular raramente em alguns cantos de prédios altos, mas meus pais infelizmente não devem ter conseguido achar”, completa.
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Brasileira e ucraniano se conheceram em Santos e estão juntos há 27 anos
‘Só preciso que eles estejam bem’
Em meio às notícias que recebeu nos últimos dias, Gabriel descobriu que o prédio em que sua família estava foi atingido por um ataque. “Alguma bomba aterrissou em alguma parte do prédio. Disseram que não foi nada de grande dano”, conta.
O marinheiro mantém o otimismo e acredita que os pais ou a avó não foram atingidos por nenhum ataque na cidade.
Ele diz que recebeu, na manhã de domingo (20/3), mensagens de uma conhecida que disse que os pais dela avistaram a família de Gabriel recentemente. “Mas isso não pode ser confirmado, já que não tenho contato direto com a minha família”, diz. Segundo o brasileiro, ela não detalhou a situação dos pais e da avó dele.
Uma das esperanças de Gabriel é que a família consiga uma vaga em algum carro que esteja deixando Mariupol. Desde o início do conflito há diversos relatos de veículos que conseguiram entrar e sair da cidade para retirar moradores.
“Mas devido ao alto número de pessoas que precisam ser resgatadas, até o momento ninguém aceitou meu pedido de ajuda, nem mesmo quando ofereço dinheiro”, conta Gabriel.
Ele reclama da falta de assistência do Itamaraty e cobra que a entidade ajude a resgatar os pais dele. “O Itamaraty apenas disse que estava em contato com a Cruz Vermelha, mas falou que não está resolvendo casos individuais, apenas tentando mandar comida para a cidade. Na minha opinião, não estão se esforçando o suficiente”, afirma.
Em nota à BBC News Brasil, o Itamaraty diz que está ciente do caso da brasileira e afirma que já acionou organizações internacionais de apoio humanitário que estão na cidade para “tentar localizar a cidadã”.
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Mariupol vive crise humanitária e milhares de pessoas tentam sair da cidade
Ainda em nota, o Itamaraty diz que tem mantido contato regular com familiares de Silvana por meio de um escritório de apoio em Lviv, na Ucrânia.
Sem respostas, Gabriel evita pensar em planos para o futuro. Ele só deverá retornar ao trabalho quando souber dos pais.
“Para onde a minha família vai, após ser encontrada, não tem a menor importância agora. Só preciso que eles estejam bem. Agora, basicamente, quero que eles sejam retirados de Mariupol e levados para algum outro país da Europa que esteja dando suporte moral e financeiro a refugiados da Ucrânia”, diz.
“MSN”
GUERRA
O que é instalação de Ras Laffan e como ataque do Irã pode prolongar crise?
Mísseis iranianos atingem instalações em Ras Laffan, interrompendo exportações e pressionando preços internacionais de energia

Em menos de 12 horas, mísseis iranianos atingiram duas vezes a cidade industrial de Ras Laffan, no Catar, causando “danos extensos” a esse importante centro de energia do país. Mas o impacto deve se estender muito além do Oriente Médio.
Operada pela estatal QatarEnergy, Ras Laffan é considerada um dos hubs de gás natural liquefeito (GNL) mais importantes do mundo, reunindo instalações de transporte, processamento e porto.
O Catar responde por cerca de 20% do fornecimento global de GNL – o segundo maior exportador, atrás apenas dos Estados Unidos –, com quase todo o gás saindo de Ras Laffan.
A produção de GNL e outros derivados está suspensa desde o início de março, devido ao fechamento efetivo da estratégica rota de navegação do Estreito de Ormuz.
Os danos significativos às instalações podem atrasar ainda mais a retomada das operações.
Alguns países do sul da Ásia, como Paquistão, Bangladesh e Índia, devem ser os mais afetados, já que dependem do Catar para mais da metade de suas importações de GNL e têm estoques limitados. Mas Ras Laffan também abastece outras partes da Ásia, além de países da Europa e da África, que terão que lidar com possíveis interrupções no fornecimento.
Além do GNL, Ras Laffan produz fertilizantes, como ureia e amônia – essenciais para a agricultura – além de enxofre e hélio, gás fundamental na fabricação de chips de computador.
Segundo a QatarEnergy, o hub responde por cerca de 25% da produção mundial de hélio.
A cidade industrial de Ras Laffan fica na ponta nordeste da península do Catar, cerca de 80 quilômetros ao norte de Doha.
O gás processado ali vem de uma grande reserva no Golfo Pérsico compartilhada com o Irã – conhecida como campo North Dome no Catar e South Pars no Irã

