O fungo foi observado em clones de guaranazeiro, indicando que o novo patógeno precisa ser monitorado para que não se torne um problema para a cultura no futuro. Foto: Ronaldo Rosa
Novo fungo do guaranazeiro pode afetar outras plantas de importância econômica
AGRONEGÓCIOS
Uma nova espécie de fungo encontrado em plantas de guaranazeiro, com sintomas caracterizados como manchas foliares semelhantes à antracnose, é capaz de causar doença foliar em plantas de açaizeiro e de dendê. A descoberta foi feita em pesquisa baseada em observação de campo, isolamento do fungo e análises de laboratório com caracterização morfológica e molecular, realizadas pelo Laboratório de Biologia Molecular da Embrapa Amazônia Ocidental (AM).
A nova espécie pertence ao grupo dos fungos chamados de pestalotióides, que engloba três gêneros (Pestalotiopsis, Pseudopestalotiopsis e Neopestalotiopsis) e causa doenças em uma ampla gama de hospedeiros. Em guaranazeiro, foram identificadas espécies que fazem parte de dois dos três gêneros que inclui os pestalotióides. De seis linhagens analisadas, três foram identificadas como fungos da espécie Neopestalotiopsis formicarum, enquanto os outros três isolados são descritos como uma nova espécie batizada como Pseudopestalotiopsis gilvanii.
O estudo traz também o primeiro relato de Neopestalotiopsis formicarum como um patógeno da planta do guaraná.
Pseudopestalotiopsis gilvanii foi isolada em plantas de guaranazeiro e despertou preocupação pela forma como afeta a cultura, pois causa sintomas que queimam a folha, reduzindo a possibilidade de fotossíntese e, consequentemente, prejudicando o desenvolvimento da planta. “Além disso, o fungo foi observado em clones de guaranazeiro que são cultivares lançadas, indicando que esse novo patógeno precisa ser monitorado para que não se torne um problema para a cultura do guaranazeiro no futuro”, alerta o pesquisador da Embrapa Gilvan Ferreira da Silva, coordenador do Laboratório de Biologia Molecular.
O cientista destaca que a descoberta é importante não apenas por revelar uma nova espécie, mas também por identificar um novo patógeno que pode se tornar um problema para algumas culturas de importância econômica em regiões tropicais. Contudo, o pesquisador deixa claro que os produtores podem manter a calma, visto que o novo patógeno no momento ainda não é uma ameaça, o fungo tem sido observado no campo em baixa frequência, sendo necessário o monitoramento para entender melhor o comportamento do patógeno.
Ferreira conta que a princípio suspeitou-se de antracnose, outra doença que afeta o guaranazeiro, causada pelo fungo Coletotrichum guaranicola. Porém, os cientistas verificaram a ocorrência da doença em plantas resistentes à antracnose, desenvolvidas por meio de melhoramento genético. Com isso chegou-se a suspeitar de uma quebra de resistência das plantas ao fungo causador da antracnose.
Outros resultados, no entanto, mostraram que se tratava de um novo patógeno. E os estudos moleculares combinados com a caracterização morfológica indicaram que parte dos isolados não apresentava correspondência com nada que estava descrito na literatura indicando tratar-se de uma nova espécie. A descoberta foi posteriormente confirmada e descrita em artigo publicado na revista Phytotaxa, especializada em taxonomia. (veja abaixo)
Publicação da descoberta
A descoberta do novo patógeno foi publicada no periódico científico Phytotaxa e está relatada no artigo científico Pseudopestalotiopsis gilvanii sp. nov. and Neopestalotiopsis formicarum leaves spot pathogens from guarana plant: a new threat to global tropical hosts, que tem como autores os pesquisadores Gilvana F.Gualberto; Aricléia de M. Catarino, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Agricultura no Trópico Úmido no Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa); Rogério E. Hanada, pesquisador do Inpa; Gilvan Ferreira da Silva, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental; Thiago Fernandes Sousa, mestrando em Microbiologia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e orientando de Gilvan, na Embrapa Amazônia Ocidental; Fernanda F. Caniato, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam); e Jeferson Cruz, técnico do Laboratório de Biologia Molecular da Embrapa Amazônia Ocidental.
Potencial fitopatogênico para várias culturas
Depois de confirmado que se tratavam de espécies fitopatogênicas em guaraná, resolveu-se investigar o potencial desses novos patógenos de afetar outras plantas economicamente importantes para a região tropical. Em condições controladas de pesquisa, o fungo foi inoculado em amostras de plantas de açaizeiro (tanto na espécie Euterpe precatória, conhecida como açaí-do-amazonas, quanto na espécie Euterpe oleracea, o açaí-do-pará), dendezeiro, bananeira e seringueira, que são culturas estudadas na Embrapa Amazônia Ocidental.
Nos resultados verificou-se que o fungo Ps. gilvanii foi patogênico para palmeiras de açaí, tanto da espécie Euterpe oleracea quanto da E.precatoria. Assim como também afetou o dendê (Elaeis guineensis), mas não teve efeito patogênico para a bananeira (Musa paradisiaca var. pacovan) e para seringueiras (Hevea brasiliensis).
A pesquisa também indicou que o fungo N. formicarum não foi patogênico para seringueiras, mas foi patogênico para outras espécies testadas. Os sintomas causados pelos fungos pestalotióides manifestados nessas culturas também são parecidos com os da antracnose, apresentando manchas de queima da folha que prejudicam a capacidade de fotossíntese das plantas.
Importância agrícola desse grupo de fungos tem aumentado
Ferreira esclarece não está se falando de frequência dessas doenças, nem de perdas causadas, uma vez que o patógeno foi descrito recentemente e estudos nesse sentido ainda não foram realizados. Entretanto, comenta que a descoberta desse novo fitopatógeno vem em momento que estudos indicam esse grupo Pestalotioides como patógenos emergentes.
Enquanto nas décadas de 1980 e 1990 patógenos desse grupo eram considerados sem muita importância, em anos recentes a literatura científica sobre eles tem aumentado bastante. Dezenas de artigos têm sido publicados anualmente sobre esses patógenos e só em 2021 foram 61 trabalhos na base de dados PubMed. Inclusive têm sido publicados estudos que mostram a importância agrícola de doenças causadas por esse grupo na China, com exemplos mostrando que ele afeta a produção, como é o caso do pinheiro Pinus bungeana, e da planta de chá Camelliae sinensis, além de coqueiros (Cocos nucifera) em Bangladesh.
Estratégias preventivas
Novos estudos estão sendo encaminhados para atuar preventivamente em relação a esses fungos fitopatogênicos e estabelecer estratégias de controle de doenças. “Foram elaborados e aprovados novos projetos para ampliar a investigação no âmbito da biologia molecular, genômica e transcriptômica”, anuncia o pesquisador da Embrapa.
Como os novos fungos foram verificados em algumas das cultivares clonais de guaraná, colocando em risco materiais que se destacam por serem bastante produtivos, serão feitas novas pesquisas para avaliação dos níveis de resistência e de susceptibilidade dessas cultivares diante desses novos patógenos.
O pesquisador explica que, em parceria com a pesquisadora Fernanda Caniato, da Ufam, será estudado em nível genômico o fungo Ps. gilvanii, com a identificação dos genes do microrganismo e dos genes de defesa do guaranazeiro contra esse novo patógeno.
Serão realizados estudos com transcriptoma (conjunto completo de transcritos de RNA) da interação entre o patógeno e clones de guaranazeiro, tanto resistentes quanto susceptíveis, para verificar transcritos expressos diferencialmente em plantas resistentes e em plantas suscetíveis.
Foi também iniciada outra linha de pesquisa que está avaliando o potencial de bactérias e fungos para combater e controlar os fungos patógenos. Esse trabalho, que tem como foco o desenvolvimento de formas de biocontrole de fitopatógenos, é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e coordenado por Caniato, da Ufam, em parceria com a Embrapa.
“Portal do Agronegócio”
AGRONEGÓCIOS
Mercado de frango enfrenta pressão nas margens mesmo com exportações firmes, aponta Itaú BBA
Relatório Agro Mensal indica queda nos preços, aumento da competitividade frente à carne bovina e riscos com conflitos no Oriente Médio

Preços do Frango Caem e Pressionam Margens da Avicultura
O mercado de frango registrou queda nos preços ao longo de fevereiro, impactando diretamente as margens do setor, mesmo diante da redução nos custos de produção. Segundo o relatório Agro Mensal, da Consultoria Agro do Itaú BBA, o preço da ave inteira congelada em São Paulo recuou 3,4% em relação ao mês anterior, sendo negociado a R$ 7,20/kg, acumulando queda de 14,5% na comparação anual.
Na primeira quinzena de março, os preços seguiram pressionados. Apesar de uma leve redução de 1% nos custos de produção, houve nova compressão do spread da atividade, que caiu para cerca de 34%, refletindo o desequilíbrio entre receita e custos na cadeia produtiva.
Redução no Custo da Ração Alivia, mas Não Sustenta Margens
Os custos de alimentação, principal componente da produção, apresentaram alívio ao longo de fevereiro. Tanto o milho quanto o farelo de soja registraram queda de preços, contribuindo para a redução dos custos operacionais.
No entanto, esse movimento não foi suficiente para compensar a queda nos preços da proteína, mantendo as margens pressionadas e limitando a recuperação da rentabilidade dos produtores.
Carne de Frango Ganha Competitividade Frente à Carne Bovina
Mesmo com preços em queda, a carne de frango ampliou sua competitividade em relação à carne bovina. Isso ocorre porque os preços do dianteiro bovino seguem em alta, tornando o frango uma alternativa mais acessível ao consumidor.
Na parcial de março, foram necessários mais de 3 kg de frango para equivaler a 1 kg de dianteiro bovino — um patamar 34% superior ao observado há um ano e 28% acima da média dos últimos cinco anos.
Exportações Sustentam a Demanda Externa
O desempenho das exportações segue como um dos principais pilares de sustentação do setor. Em fevereiro, o Brasil embarcou 427,3 mil toneladas de carne de frango in natura, volume 5,4% superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior. No acumulado do ano, o crescimento é de 4,5%.
Além do avanço em volume, o preço médio em dólar também apresentou valorização de 3,7% na comparação anual. Ainda assim, a variação cambial limitou os ganhos em reais, reduzindo o impacto positivo sobre a rentabilidade das exportações.
Entre os principais destinos, a maioria apresentou crescimento, com exceção de mercados relevantes como China e México, que registraram retração nas compras.
Aumento da Oferta Também Influencia o Mercado
Do lado da produção, os dados indicam crescimento na oferta. Os alojamentos de pintinhos em janeiro ficaram 3,6% acima do mesmo período de 2025, sinalizando maior disponibilidade de carne no mercado nos meses seguintes.
Esse aumento de oferta contribui para manter os preços pressionados, especialmente em um cenário de incerteza sobre o escoamento da produção no mercado externo.
Oriente Médio Eleva Riscos para a Avicultura Brasileira
O cenário internacional adiciona novos desafios ao setor. O conflito no Oriente Médio, região que responde por cerca de 30% das exportações brasileiras de carne de frango, aumenta os riscos logísticos e comerciais.
A possibilidade de bloqueios no Estreito de Ormuz e a necessidade de redirecionamento de cargas podem elevar custos de transporte e prazos de entrega, afetando a competitividade do produto brasileiro.
Além disso, a incerteza sobre o fluxo de exportações pode resultar em maior oferta no mercado interno, limitando eventuais altas de preços.
Energia e Custos de Produção Voltam ao Radar
A escalada dos preços de energia, influenciada pelo cenário geopolítico, também impacta o setor. O aumento do petróleo tende a pressionar custos ao longo da cadeia produtiva, incluindo logística e insumos.
Com isso, o espaço para novas quedas nos custos de ração se torna mais restrito, enquanto o comportamento da safra de milho safrinha segue como fator decisivo para a formação dos custos nos próximos meses.
Perspectivas: Cautela Diante de Incertezas
O cenário projetado para a avicultura brasileira indica continuidade de volatilidade, com margens pressionadas e elevada dependência do mercado externo.
Entre os principais pontos de atenção estão:
- Evolução dos conflitos no Oriente Médio e impactos logísticos;
- Comportamento dos custos de ração, especialmente milho e soja;
- Ritmo de crescimento da oferta interna;
- Desempenho das exportações e variação cambial.
Diante desse contexto, o setor deve seguir operando com cautela, monitorando fatores externos e internos que influenciam diretamente a rentabilidade da produção.
Fonte: Portal do Agronegóciov

